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CInAPCe: neurociência para todos

Cerqueira, NF; Covolan, RJM; Li Min, L.

Outubro de 2007
Atualizado em julho de 2008  

       A idéia da criação de um programa de neurociências que levou ao CInAPCe começou a surgir no final dos anos 1990, com um objetivo mais amplo e um espectro de pesquisadores mais restrito do que o atual. Originalmente, pensava-se em criar uma rede de pesquisa interdisciplinar dentro da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) para adquirir tecnologia de ponta e estudar a dinâmica cerebral. Nessa época, a Unicamp já dispunha de uma equipe multidisciplinar estruturada para efetuar pesquisas na área de neurociências, campo que experimentou um crescimento sem paralelo na última década do século XX. O grupo havia sido formado a partir de uma chamada interna da Universidade para projetos estratégicos e era composta por cientistas da Faculdade de Ciências Médicas e dos institutos de Física, Biologia e Computação.

       A colaboração científica hoje conhecida como Programa CInAPCe - Cooperação Interinstitucional de Apoio à Pesquisa sobre Cérebro - começou a tomar corpo por volta do segundo semestre de 2000, em meio às várias discussões sobre o futuro da pesquisa no pequeno universo ao redor do Laboratório de Neuroimagem da Universidade, onde a questão da limitação tecnológica imposta pela máquina de ressonância magnética tornava-se evidente. Dentro da necessidade da criação de novas frentes e, sobretudo, de uma filosofia de pesquisa então inexistente naquele meio acadêmico, o projeto CInAPCe começou a tornar-se realidade.

       A idéia começou com algumas conversas entre os professores Li Li Min e Fernando Cendes da Faculdade de Ciências Médicas e Roberto Covolan e Carlos Henrique de Brito Cruz do Instituto de Física, que pretendiam transformar a Unicamp numa espécie de laboratório avançado em pesquisas na área de neurociências a partir da aquisição de um equipamento de ressonância de alto campo. Enquanto Cendes fazia contatos com diferentes grupos de pesquisa, Li e Covolan percorriam laboratórios para expor as diretrizes da iniciativa.

       Nessa época, foram contatados pesquisadores seniors de várias instituições do Estado de São Paulo, como Horácio Panepucci e Alberto Tannús, da USP São Carlos, Oswaldo Baffa, João Pereira Leite e Américo Sakamoto, da USP Ribeirão Preto, Claudia Leite, Carlos Buchpiguel e Wagner Gattaz da USP São Paulo, além de Luiz Eugênio Mello e Esper Cavalheiro, da Unifesp, com os quais a proposta de um programa interinstitucional em neurociências foi discutida.

       As idéias foram tomando corpo até a realização do I Workshop de Dinâmica Cerebral Normal e Patológica, realizado em dezembro de 2000. A idéia de organizar esse encontro foi justamente para se discutir a viabilidade da formação dessa rede de colaboração, que visaria pesquisar e desenvolver novos métodos de estudos sobre o funcionamento cerebral nos mais diferentes níveis e em situações normais e patológicas. No encontro foi lançada a idéia da criação de um programa multidisciplinar e interinstitucional de abrangência estadual. A proposta foi encampada por grupos de cientistas especializados em dinâmica cerebral, mas ficou decidido também que pesquisadores das áreas de exatas e tecnológicas seriam incorporados ao escopo do programa, juntando-se ao pessoal de biomédicas e biológicas.

       Desse workshop surgiram, portanto, elementos suficientes para se acreditar que um novo programa de financiamento, com linhas de pesquisa multidisciplinares, levaria a novos conhecimentos que poderiam ser transferidos aos setores tecnológicos interessados, bem como propiciariam o advento de novas abordagens diagnósticas precoces e terapêuticas específicas para várias doenças que acometem o cérebro humano. Junto às atividades de pesquisa, certamente se poderia desenvolver um programa para a formação de recursos humanos altamente capacitados, que ampliariam as possibilidades de investigação nessa área da bio-ciência-tecnologia. Este workshop foi um marco importante e teve participação expressiva de grupos de pesquisa em neurociência existentes no Estado de São Paulo. Além de grupos da Unicamp, este workshop contou com a presença de pesquisadores da USP, campi de São Paulo (USP-SP), de Ribeirão Preto (USP-RP) e de São Carlos (USP-SC), e da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

       Embora o pano de fundo das discussões fosse, conforme proposto, a formação de uma rede de colaboração, tomou-se o cuidado de enfatizar a importância de se atentar para as competências científicas estabelecidas nas diferentes áreas que estavam sendo objeto de apresentação, análise e discussão. De fato, esse foi o primeiro encontro realizado no estado, reunindo pesquisadores com background científico tão diferente, mas com o interesse comum voltado para o estudo do cérebro. Aliás, não se tem notícia de que algo do gênero tenha sido realizado antes no Brasil.

       Nesta primeira reunião além da adesão significativa dos grupos de pesquisa na área de neurociência do estado, desencadeou-se um movimento interinstitucional na tentativa de viabilizar pesquisa de alta complexidade e multidisciplinar. Para que isto pudesse se concretizar foi criado um comitê para avaliar o estado de pesquisa e massa crítica dos grupos existente e formular questões biológicas relevantes e possíveis de serem respondidas em esforço conjunto utilizando recursos tecnológicos de ponta ou motivando o seu desenvolvimento. Os frutos mais imediatos do workshop foram a criação de grupos de trabalho e a organização de eventos similares, porém, o foco do projeto e a metodologia não foram imediatamente estabelecidos.

       Para dar prosseguimento às idéias surgidas no I workshop, em fevereiro de 2001 ocorreu a I Reunião do Comitê Científico Metodológico e Tecnológico (ComCieMTe), quando foram apresentadas as questões biológicas: a) levantar os tópicos de pesquisa em neurociências importantes de serem abordados num projeto dessa magnitude; b) estabelecer quais metodologias, técnicas e tecnologias seriam necessárias para responder as questões científicas levantadas. O I ComCieMTe não trouxe um avanço importante imediato no movimento geral, talvez porque a filosofia proposta não era ainda clara para todos. Foi nesta reunião que Li apresentou a proposta do nome “CInAPCe”, - uma alusão ao termo “sinapse”, a região de encontro entre neurônios - que se manteve.

       A II Reunião do ComCieMTe foi realizada em março de 2001. Nessa reunião, o número de grupos participantes aumentou e as bases do CInAPCe se solidificaram. Foram discutidos temas técnicos e tecnológicos e o caráter organizacional do programa. O objeto de estudo foi limitado para tornar o projeto mais tangível e a escolha do tema epilepsia foi natural. A epilepsia era o assunto mais estudado pelos participantes do projeto e, ao mesmo tempo, dava materialidade à idéia de se estudar a dinâmica cerebral, focalizando inicialmente a investigação científica em uma enfermidade que pode ser vista como uma disfunção dessa dinâmica.

       Em um esforço paralelo para atingir esse objetivo, Li juntamente com o professor Roger Castilho ficaram encarregados de centralizar e escrever o projeto a ser submetido ao programa de CNPq na modalidade em edital na ocasião, o Instituto do Milênio. A proposta não foi aprovada, mas o trabalho em conjunto foi produtivo e a experiência muito rica. O projeto serviu então como um embrião para o projeto CInAPCe que foi modificado e apresentado em reunião fechada ao então diretor científico da Fapesp, Fernando Perez.

       A materialização da idéia começou a acontecer em julho de 2001 com o envio do Projeto CInAPCe à Fapesp, no qual foram colocados os pontos principais do programa. O documento tinha o objetivo duplo de propor à Fapesp a realização de estudos visando a criação de um programa de financiamento específico para o desenvolvimento da área de neurociências e tecnologias afins no estado de São Paulo e, ao mesmo tempo, de fornecer subsídios iniciais nesse sentido.

       O chamado Projeto CInAPCe balizava a idéia da formação de uma rede de Cooperação Interinstitucional de Apoio a Pesquisas sobre o Cérebro, a partir da necessidade de abordar um problema biológico extremamente relevante e complexo, combinando a vocação profissional de grupos de pesquisa com experiências distintas e complementares. A questão biológica central é a compreensão dos mecanismos que controlam o funcionamento cerebral normal e patológico no ser humano. Fenômenos tão diversos como memória, neurotransmissão, degeneração e morte neuronal em doenças que acometem o sistema nervoso central fazem parte da complexidade da dinâmica cerebral e requerem para o seu estudo a contribuição de grupos de pesquisa multidisciplinares atuando de forma colaborativa.

       A diretoria científica da Fapesp sinalizou favoravelmente mas requisitou algumas mudanças e que a proposta fosse formalizada com a submissão do projeto na sua íntegra, para ser julgado por um painel de revisores internacionais. Entretanto, quando se preparava para dar início aos entendimentos de praxe, a história passou a ter idas e vindas, ficando à mercê da conjuntura. A maior das intercorrências foi a crise cambial de 2002. A disparada do dólar estancou as linhas de pesquisa, paralisando dezenas de projetos, sobretudo em razão do preço dos insumos importados. As eleições presidenciais se aproximavam e eram, da mesma forma, outro fator complicador. Uma tarefa que seria rápida acabou se arrastando por meses e a proposta foi submetida somente em junho de 2002.

       O projeto final teve como tema central a epilepsia, devido à importância da doença como problema médico, à atualidade científica e à existência de um número expressivo de diferentes grupos de pesquisa com competência na área. A esta altura, previa-se que o projeto fosse subdividido em duas fases de seis anos cada, com a participação de três universidades (USP, Unifesp e UNICAMP) e 30 grupos de pesquisas estabelecidos. Contudo, em função da crise cambial, o projeto ficou em estado de hibernação até dezembro de 2003, quando, com o câmbio estabilizado e a conseqüente volta dos investimentos, a Fapesp sinalizou que havia interesse em bancar o programa. Para isto, haveria necessidade de redimensionamento orçamentário e apresentação do projeto ao Comitê Internacional, o que aconteceu em abril de 2004 com muito sucesso.

       Uma avaliação feita por revisores internacionais mostrou à agência de fomento que valeria investir no programa. Além de participarem da avaliação interna, Brian Meldrum, professor de neurologia experimental do King’s College, de Londres; Bruce Pike, do Centro de Imagem do Cérebro McConnell, em Montreal; e Ana Nobre, da Universidade de Oxford, auxiliaram a criar diretrizes. A seleção dos convocados, feita por edital, consolidaria as bases do CInAPCe. Cada instituição participante deveria contar com um pesquisador da área de ciências exatas e outro da área de biológicas no comando de cada proposta, pré-requisito para garantir a multidisciplinaridade. Os interessados em participar do Programa foram, então, convocados por meio de um edital lançado pela Fapesp em outubro de 2004.

       De acordo com o edital, a escolha inicial de uma tecnologia central - ressonância magnética de alto campo – e o estudo de uma única questão, epilepsia, dão ao grupo a coesão necessária para conduzir de forma produtiva importantes pesquisas e desenvolvimento tecnológico nessa área.

       O início oficial do Programa CInAPCe ocorreu em abril de 2007, com a assinatura dos termos de outorga pela Fapesp.
Em novembro de 2007 aconteceu o lançamento oficial do website CInAPCe. O evento foi transmitido ao vivo pelo portal a partir da sala de videoconferências da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Houve a apresentação do website pelo coordenador do projeto, Li Li Min, seguida por uma vídeo-conferência entre os outros coordenadores do CInAPCe e convidados. O portal visa divulgar as pesquisas realizadas, que abordam temas relacionados às neurociências e à epilepsia. Essa divulgação faz-se necessária para informar a sociedade sobre desenvolvimento e os resultados obtidos pelo programa, de relevância científica, tecnológica e social.

       A divulgação dos resultados das atividades de pesquisa pelo portal CInAPCe tem se mostrado uma forma eficiente de ampliar o acesso da sociedade aos resultados da produção científica e tecnológica do programa. O portal CInAPCe é um centro virtual com grande potencial e um modelo de pesquisa inovadora e inédita na área de neurociências no Brasil. Pela sua interatividade, o portal possibilita a troca de informações e dados de pesquisa entre os profissionais envolvidos e é uma fonte de conhecimento científico para o público em geral, por se tratar de uma importante interface com a sociedade por meio de notícias e informações jornalísticas, com uma linguagem bastante acessível. Adicionalmente, o portal tem o potencial de pautar outros meios de comunicação.

       Também em 2007, instituiu-se uma parceria científica entre o CInAPCe e a Philips , que inclui um programa específico de treinamento e um acordo de pesquisa. O treinamento envolve operação e manutenção dos equipamentos de ressonância magnética adquiridos da empresa. Já o acordo de pesquisa e desenvolvimento prevê que os equipamentos serão sistemas abertos para os pesquisadores do CInAPCe, funcionando como um laboratório onde se pode criar, testar e desenvolver novos métodos de aquisição de dados e de processamento de imagens.
Com o intuito de se discutir o andamento das atividades do programa, o II Workshop CInAPCe foi realizado em junho de 2008, em Campinas. O evento criou um ambiente multidisciplinar e multiinstitucional propício ao debate, onde foram apresentados resultados preliminares das pesquisas, bem como as atividades em andamento e as atividades planejadas dentro do programa.

       O CInAPCe é supervisionado anualmente por um comitê de cinco membros – Scientific Advisory Committee, SAC – composto por dois especialistas internacionais em ressonância magnética de alto campo e três pesquisadores do estado de São Paulo. Os nomes que compõem o SAC são indicados pela FAPESP.

       Atualmente, o programa tem seis centros de pesquisa principais (MRCs). Quatro deles (Unicamp, USP Ribeirão Preto, USP São Paulo e Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein) abrigarão equipamentos com campo de três tesla (medida de indução magnética e de densidade de fluxo magnético), os mais avançados atualmente, para estudos com humanos. Outro centro, localizado na USP São Carlos, terá um sistema de ressonância magnética no qual serão realizados estudos em modelos animais, em colaboração com grupos de pesquisa da Unifesp. Os centros foram selecionados com base nas propostas de pesquisa enviadas à Fapesp. Os MRCs devem não apenas conduzir pesquisa de alta qualidade, mas desenvolver novos métodos para processar e analisar imagens de ressonância magnética. Os MRCs também têm um importante papel na definição e promoção de programas para o treinamento multiinstitucional de estudantes e pesquisadores.

      É previsto que os centros definidos para o programa CInAPCe comecem a fazer parte da rede KyaTera do Programa Tidia (Tecnologia da Informação no Desenvolvimento da Internet Avançada), também da Fapesp, permitindo a transmissão de grande volume de dados em alta velocidade entre os diversos grupos participantes.

        Nas próximas fases do programa, doenças cérebro-vasculares, demências e transtornos mentais também deverão ser estudados. Também serão aplicadas novas tecnologias, como a magnetoencefalografia e a tomografia por emissão de pósitron. E, a partir da formação da rede virtual, deverá haver um processo de fluxo contínuo, como ocorre hoje com outros programas.

 
Fontes:
Kassab, A. Um trabalho em rede. Para desvendar o cérebro. Jornal da Unicamp 31/07 – 06/08/2006.
Disponível em: http://www.unicamp.br/unicamp/unicamp_hoje/ju/julho2006/ju331pag04.html.

Klebis, D. Atenção à epilepsia será projeto nacional. Revista Eletrônica Com Ciência 02/06/2006.
Disponível em: http://www.comciencia.br/comciencia/?section=3&noticia=130
Neurociências: Epilepsia. Revista Eletrônica Com Ciência – n. 33 julho 2002.
Disponível em: http://www.comciencia.br/reportagens/framereport.htm
Novo programa estimula estudos sobre o cérebro. Agência Fapesp 04/10/2004.
Disponível em: http://www.agencia.Fapesp.br/boletim_dentro.php?data%5Bid_materia_boletim%5D=2552
Projeto para organização de uma rede de Cooperação Interinstitucional de Apoio à Pesquisa sobre Cérebro.
Documento dirigido à Fapesp em Julho de 2001. Elaborado por Fernando Cendes, Íscia Lopes-Cendes, Li (Faculdade de Ciências Médicas - Unicamp) e Roberto J. M. Covolan (Instituto de Física Gleb Wataghin - Unicamp) em nome da Colaboração CInAPCe
 
 
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